quarta-feira, 20 de maio de 2009

Relatório CNPCP sobre os presídios capixabas

RELATÓRIO DE VISITA AO ESPÍRITO SANTO

 

1.     DOS PRESÍDIOS VISITADOS

 

                   A visita se fez nos dias 16 e 17 de abril na Casa de Custódia de Viana e no presídio de celas metálicas — CONTAINERS —  de Serra.

 

                   A Casa de Custódia de Viana está sob a fiscalização da Secretaria da Justiça, enquanto que as celas metálicas da Serra estão sob a tutela da Secretaria da Segurança Pública.

 

2.     DAS CONDIÇÕES ENCONTRADAS NA CASCUVI.

 

                   A recepção na Casa de Custódia de Viana foi feita pelo subsecretário para assuntos do sistema penal, Cel. José Otávio Gonçalves. Nossa visita foi acompanhada por dois Procuradores da República, Drs. André Pimentel e Dra. Luciana, pelo Secretário Geral Adjunto da OAB-ES, Dr. André Luiz Moreira, pelo presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos, Dr. Bruno Souza, pelo representante da Igreja Católica, Padre Xavier e pela Sra. Maria das Graças, presidente da Associação de Mães de Vítimas da Violência.

 

                   Já na entrada do presídio, o subsecretário tentou impedir que nós utilizássemos máquinas fotográficas para registrar a visita. Alegou questão de segurança. Quando afirmamos que não haveria qualquer visita sem registro fotográfico, a questão de segurança foi imediatamente superada.

 

                   Fomos recebidos na ala da diretoria. Ali, todos os visitantes, em contato com os diretores, obtiveram algumas informações relevantes para compreensão da situação na Casa de Custódia.

 

                   Todas as visitas do sexo feminino são submetidas às revistas íntimas. Sejam elas jovens, crianças ou idosas. Há denúncias de que crianças do sexo masculino também são revistadas. O prepúcio é verificado para se saber se não há drogas entre a prega cutânea e a glande do pênis. Nas mulheres, exames de toques são comuns, sempre feitos por agentes penitenciárias sem qualquer formação na área da saúde.

 

                   Houve uma discussão entre o Padre que nos acompanhava e a direção do presídio. É que as Igrejas não estão autorizadas a qualquer forma de visita. Segundo o subsecretário para assuntos do sistema penal, Cel. José Otávio Gonçalves, isso não é verdade. “Houve limitações no passado, por motivo de segurança, mas agora o Padre Xavier poderá visitar o presídio, por haver resolução disciplinando a matéria”. Presos, ouvidos depois, confirmaram não existir assistência religiosa.

 

                   A assistência jurídica por advogados particulares só é feita mediante agendamento, com bastante antecedência. Não há qualquer defensor público. Não há advogados dativos conveniados pela OAB/ES. Segundo informações colhidas posteriormente, há 3 defensores públicos para atendimento em todo sistema carcerário capixaba. Como há mais de 7 mil presos no Espírito Santo, esse atendimento é considerado por todos como inexistente. A administração do presídio afirma existir dois “assessores jurídicos” para atendimento da população carcerária da Casa de Custódia de Viana, fato desmentido pelos presos. Em diligência pessoal junto à OAB/ES, constatamos que os “assessores jurídicos” mencionados não são inscritos na OAB/ES.

 

                   O presídio, com lotação prevista para 370 presos, possuía, no dia da visita, 1.177 detentos, distribuídos em três pavilhões. Em nenhum deles há grades nas celas. Os presos de cada pavilhão ficam misturados, sem qualquer agente penitenciário ou policial militar entre eles; seja dia ou noite. O presídio tem 25 agentes penitenciários que não entram nos pavilhões. A polícia militar permanece na muralha. Entre a muralha e os pavilhões há cercas farpadas e cercas elétricas.

 

                   O estado de deterioração dos edifícios é digno de nota. Como não há qualquer controle sobre os presos, partes dos pavilhões, em sucessivos períodos, foram sendo destruídas. Não há luz elétrica. Não há chuveiros. A água é fornecida somente ao final do dia. Durante a noite, os pavilhões são iluminados com holofotes direcionados das muralhas. O estado de higiene é de causar nojo. Colônias de moscas, mosquitos, insetos e ratos são visualizáveis por quaisquer visitantes. Restos de alimentos são encontráveis em meio ao pátio. Larvas foram fotografadas em várias áreas do presídio. Não qualquer atividade laboral.

 

                   A segurança inexiste para presos ou visitantes. Nos últimos anos, há denúncias de vários corpos de presos esquartejados. Quando os corpos são achados — ou ao menos partes deles — a administração reconhece as mortes. Quando não são encontrados, a administração afirma supor ter havido fuga. Visitamos os pavilhões cercados por guardas armados. Tentaram nos impedir a visita alegando problemas de segurança. No contato com os presos soubemos dos casos de tortura. Atendimento médico inexiste. Flagramos presos com doenças de pele. A escabiose, em um dos casos, toma todo o tronco de um interno. Na véspera de nossa chegada, os presos foram obrigados a limpar os pavilhões. Por não haver colaboração dos condenados, a polícia militar disparou vários tiros. Recolhemos cápsulas de revólveres, fuzis e balas de borracha.

 

                   Também encontramos vários presos denunciando torturas. O local apontado como sendo o da prática de martírios está desativado, segundo a administração. Trata-se de uma cela escura, com goteiras internas, e que se encontrava fechado com um cadeado. A tranca era nova e não apresentava quaisquer sinais de ferrugem. Pareceu-nos estar em plena atividade. Ademais, foram muitas as reclamações das torturas por parte de presos. No dia seguinte, conversando com advogados na sede da OAB/ES, verificamos que as denúncias de tortura eram recorrentes.

 

                   Na entrada do edifício há 3 celas vizinhas que são destinadas a trânsito e a seguro. Os presos do seguro imploraram por suas vidas. Disseram que a vida deles, ali ao lado dos presos em trânsito, estava em risco. A administração do presídio disse nada poder fazer.

 

                   Ao final da visita verificamos aleatoriamente a comida. Pareceu-nos razoável. Tinha arroz, algo que parecia ser batata e um bife. Depois de tudo que vimos, foi o menos impactante.

 

                   Quando saíamos da CASCUVI, tivemos nossa atenção chamada por um diretor. Disse-nos que a administração penitenciária tinha orgulho do kit de higiene que era dado semanalmente a todo preso. Continha sabonete, pasta de dente e um papel higiênico de folhas duplas. Depois do que vimos, soou como humor negro.

 

3.     DAS CONDIÇÕES DAS CELAS METÁLICAS DE NOVO HORIZONTE

 

                   Chegamos no início da tarde à cidade de Serra, onde estão containers que o Estado chama de presídios. O local tem capacidade para 144 presos e tinha quase quatrocentos.

 

                   Quando chegamos, encontramos alguns presos encarregados de uma faxina. Vários depoimentos foram no sentido de que isso se iniciara na véspera, com o anúncio de nossa visita. Cada container tinha cerca de 40 presos. O local é absolutamente insalubre. A temperatura, no verão, passa de 45 graus, segundo vários depoimentos. Não há qualquer atividade laboral, como de resto já ocorria na CASCUVI. Não há médico. Não há advogado. Não há defensoria. Não há privacidade alguma.

 

                   As visitas semanais são feitas através de uma grade farpada. São fatos comuns as crianças se cortarem ao tentar pegar na mão dos detentos por entre as grades. Não há visita íntima.

 

                   Sob as celas encontramos um rio de esgoto (a manilha estava quebrada há semanas). Na água preta e fétida encontravam-se insetos, larvas, roedores, garrafas de refrigerantes, restos de marmitas, restos de comida, sujeiras de todos os tipos. A profundidade daquele rio de fezes e dejetos chegava a quarenta centímetros, aproximadamente. O cheiro era de causar náuseas. Todos nós chegamos à conclusão que nunca havíamos visto tão alto grau de degradação. Poucas vezes na história, seres humanos foram submetidos a tanto desrespeito.

 

                   Vencendo a repugnância do odor, aproximamo-nos dos presos. Novas denúncias de comida podre e de violências. Encontramos um preso com um tiro no olho e outro com marcas de bala na barriga. Marcas de balas na parte externa dos containers são comuns. A promiscuidade impera. Violências entre presos e contra presos foram denunciadas.

 

                   Enquanto estávamos lá, presenciamos uma tentativa de fuga de um preso, que foi encontrado escondido em um latão de lixo. O preso negou-se a dar-nos seu verdadeiro nome, por medo de represália que certamente aconteceria quando deixássemos o local.

 

                   No mesmo dia em que visitamos esse local imundo e nojento, tivemos notícia que a administração penitenciária reativara uma cela semelhante, que fora carinhosamente chamada de “cela micro-ondas”. Tal container, sem janelas, foi desativado por decisão judicial. Segundo jornais, a reativação da “cela micro-ondas”, com 23 presos ali colocados em pleno dia de visitas do CNPCP, foi feita em descumprimento às ordens judiciais.

 

4.     DA REUNIÃO COM O SECRETÁRIO DE JUSTIÇA, ÂNGELO RONCALI.

 

                   Fomos recebidos pelo Secretário da Justiça do Espírito Santo, Ângelo Roncali.

 

                   Propusemos a ele a criação de um grupo permanente de trabalho para apresentar propostas gradativas de minimização dos problemas carcerários encontrados nos dois estabelecimentos penais visitados. Comporiam esse grupo de trabalho um representante do DEPEN, um representante do CNPCP, o MP estadual, o MPF, a OAB/ES, o Juiz da Execução e os representantes da Secretária de Justiça e da Segurança Pública.

 

                   O Secretário da Justiça, Ângelo Roncali, explicou todas as dificuldades que teve desde que assumiu a secretaria. Disse, em síntese, que os problemas só serão resolvidos com a construção de novos presídios, o que está programado para o ano de 2010 e seguintes. Disse-nos que tais edifícios não demorarão quase nada, já que são todos construídos sem qualquer licitação, em regime de emergência. Não há estudo de impacto ambiental, segundo apuramos.  Não se dispôs a investir um único tostão nos presídios antigos. Negou-se a reconhecer a existência de celas de tortura. Disse nada ter a ver com os esquartejamentos que periodicamente ocorrem no sistema carcerário. Disse que as deficiências da Defensoria existem em vários Estados. Não se dispôs a construir grades nas celas dos pavilhões. Não se dispôs a separar presos em trânsito dos presos em seguro, pois isso implicaria em gastos com obras físicas em presídio antigo, condenado à demolição.  Não nos deu resposta, até a presente data, sobre a proposta de um GT (grupo de trabalho permanente).

 

                   Em determinado momento da reunião, começou a insinuar que tínhamos motivação política e que não estávamos do lado dele e sim do lado do “grupo de direitos humanos”. Isso aconteceu quando pedimos a desativação da cela escura. Com total veemência disse que não estava de lado algum, mas sim do lado da lei. E a LEP, em seu artigo 45, § 2º, veda o emprego de celas escuras. A ríspida discussão foi presenciada por membros do MP estadual e do Judiciário. Quando perguntamos se estes sabiam das condições em que estavam recolhidos, somente nos dois presídios visitados, mais de 1.500 pessoas, disseram-nos que sim e que não vão fazer nada a respeito. Perguntamos sobre eventual interdição, mas ambos responderam que têm uma política cooperativa com o Executivo Estadual.

 

5.     DA REUNIÃO COM AS ENTIDADES DE DIREITOS HUMANOS.

 

                   No dia seguinte, pela manhã, mantivemos contato com entidades de direitos humanos. A reunião realizou-se na sede da OAB. Contou com as presenças de seu presidente, da Deputada Federal Iriny Lopes, de representantes das Igrejas Católica e Evangélicas, de Defensores Públicos, da Associação de Investigadores de Polícia, da Comissão Permanente de Combate à Tortura, dos Procuradores da República que acompanharam a visita da véspera, além de inúmeros advogados e representantes de outras entidades.

 

                   Todos denunciaram a inércia do Executivo Estadual, do Juiz da Execução e do MP Estadual.

 

                   Unanimemente foram apresentados casos de desaparecimento de presos na CASCUVI. Unanimemente foram denunciados casos de tortura. Unanimemente foi denunciado o sr. Secretário de Justiça por impedir as visitas de religiosos ao presídio. Unanimemente foram denunciados obstáculos que se colocam à livre visita de advogados aos seus clientes. Unanimemente foram denunciadas condições degradantes e desumanas nos cárceres visitados. Unanimemente foram denunciados esquartejamentos. Unanimemente foram denunciados a inércia e o envolvimento político com o Executivo Estadual dos senhores Rubens José da Cruz, Juiz da Execução, e César Augusto Ramaldes da Cunha Santos,  Promotor da Execução, por não tomarem medidas que gerassem a interdição da CASCUVI. Unanimemente foi denunciada a falta de colchões nas celas dos presídios visitados. Unanimemente foi denunciada a falta de Defensoria Pública no local, ou de qualquer outro atendimento jurídico gratuito.

 

                   Ao final da reunião, recebi da OAB denúncia, fartamente documentada, de descumprimentos dos direitos humanos, tortura e desmandos no sistema carcerário capixaba.

 

                   Vi, pois, que o Estado do Espírito Santo, ao menos do pequeno diagnóstico que fizemos, está em verdadeiro estado de Anomia.

 

6.     DAS MEDIDAS PROSPOSTAS

 

                   Não vimos, na reunião que tivemos com as autoridades locais, qualquer interesse na apuração dos problemas por nós identificados. Por isso, passo a propor.

 

a.      Expedição de ofício ao Procurador Geral da República para que possa tomar as providências cabíveis, e em particular para que adote os procedimentos necessários para intervenção federal no Estado (nos termos do artigo 34, Inciso VII, alínea “b”, c.c. artigo 36, III, ambos da Constituição Federal), para assegurar a observância de direitos da pessoa humana;

 

b.     Expedição de ofício ao Presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil e ao Presidente da Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil do Espírito Santo, para as providências que entenderem necessárias, especialmente a adoção de outros procedimentos legais nas esferas federal e estadual;

 

c.     Expedição de ofício aos presidentes das duas casas do Legislativo Federal, para que se dê ciência aos representantes do povo brasileiro no Congresso Nacional, bem como aos representantes dos Estados, dos desmandos praticados no Espírito Santo, especialmente para noticiar às duas casas do Congresso os sucessivos casos de esquartejamento de presos e torturas;

 

 

d.     Expedição de ofício ao Presidente do TCU e do Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo, a fim de apurar eventuais irregularidades na construção de presídios sem qualquer licitação, segundo assertiva do próprio Secretário da Justiça;

 

e.      Expedição de ofício ao Conselho Nacional de Justiça e ao Corregedor-Geral de Justiça do Espírito Santo, para apurar a inércia do Magistrado que oficia na Vara das Execuções, Dr. Rubens José da Cruz, por se negar a atuar, mesmo quando instado pelo CNPCP, no que concerne às medidas tendentes à interdição da CASCUVI e/ou dos containers de Novo Horizonte;

 

f.       Expedição de ofício ao Tribunal de Justiça do Espírito Santo para que tome providências sobre o descumprimento de ordem judicial quanto à interdição das celas denominadas de “forno micro-ondas”, conforme denunciado pelo jornal “A Gazeta”, edição de sexta-feira, dia 17, p. 10.

 

g.     Expedição de ofício ao Procurador-Geral da Justiça, para que tome providências sobre o descumprimento de ordem judicial quanto à interdição das celas denominadas de “forno micro-ondas”, conforme denunciado pelo jornal “A Gazeta”, edição de sexta-feira, dia 17, p. 10.

 

h.     Expedição de ofício ao Conselho Nacional do Ministério Público e ao Corregedor-Geral do Ministério Público do Espírito Santo, para apurar a inércia do Promotor de Justiça que oficia na Vara das Execuções, Dr César Augusto Ramaldes da Cunha Santos, por se negar a atuar, mesmo quando instado pelo CNPCP, no que concerne às medidas tendentes à interdição da CASCUVI e/ou dos containers de Novo Horizonte;

 

i.        Expedição de ofício ao Secretário Nacional de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, para que tome ciência dos inúmeros casos de tortura e esquartejamento de presos denunciados pelo Comitê Estadual Permanente pela Erradicação da Tortura, Tratamentos Cruéis e Degradantes;

 

j.        Expedição de Ofício ao Procurador-Geral de Justiça do Espírito Santo, para apurar a responsabilidade pelos eventuais crimes de tortura denunciados pelas entidades de direitos humanos — por omissão, nos termos do art. 13, § 2º, “a” do CP, c.c., art. Art. 1º, § 1º da Lei Federal n. 9455/97 (aquele que se omite em face dessas condutas, quando tinha o dever de evitá-las ou apurá-las, incorre na pena de detenção de um a quatro anos) — dos responsáveis pela Administração carcerária do Estado do Espírito Santo;

 

k.     Expedição de ofício ao Exmo. Sr. Ministro da Justiça e ao Diretor-Geral do Departamento Penitenciário Nacional, para que determinem a sustação de quaisquer repasses de verbas do FUNPEN ao Estado do Espírito Santo, enquanto todas as providências no âmbito do Estado não forem tomadas.

 

l.        Adoção de tantas quantas forem as medidas necessárias por parte deste Egrégio Conselho, no sentido de obstaculizar o dramático estado de coisas encontrado no Estado do Espírito Santo.

 

                   Brasília, 27 de abril de 2009.

 

                   Sérgio Salomão Shecaira

                   Presidente do CNPCP

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

AUDIÊNCIA PÚBLICA: DIREITO, IDENTIDADE e TERRITORIALIDADE DAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS.


Vitória, 29 de agosto de 2007.

Prezados companheiros e companheiras,

Tendo em vista

1. O processo de regularização das terras tradicionalmente ocupadas pelas comunidades quilombolas no Espírito Santo;
2. As resistências a este processo de titulação por parte do "movimento pela paz no campo";
3. As ameaças de agressão sofridas pelas comunidades quilombolas em todo o Espírito Santo;
4. A desinformação da sociedade civil capixaba sobre os processos de reconhecimento e titulação das terras tradicionalmente ocupadas pelas comunidades quilombolas no Espírito Santo;
5. A necessidade de resguardar os direitos constitucionais das comunidades quilombolas no Espírito Santo.

Estaremos realizando uma audiência pública em parceria com o gabinete da deputada estadual Janete de Sá a ser realizada no dia 12 de setembro de 2007 de 08h00minh as 12h00minh no Plenário da Assembléia legislativa. Situada na Av. Américo Buaiz, 205. Enseada do Suá. Vitória-ES cujo objetivo é dar subsídios à população capixaba sobre o processo de reconhecimento e titulação das terras tradicionalmente ocupadas pelas comunidades quilombolas.

Na ocasião da audiência será lançado o fascículo "Comunidade Quilombola de Linharinho" produzido no âmbito do "Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades Tradicionais no Brasil" (MMA/Ford Foundation).

Portanto vimos por meio deste convidar esta instituição para participar da referida audiência com o objetivo de apresentar as políticas para as comunidades quilombolas, como também mediar o diálogo entre o movimento quilombola e órgãos afins no sentido de superar o conflito instalado contra as comunidades quilombolas deste estado.

Atenciosamente,

A coordenação

V Festival do Beiju 2007


terça-feira, 14 de agosto de 2007

Carta de Solidariedade à Comunidade Quilombola de Linharinho

Destinada ao Sr. Desembargador Raldênio Bonifácio Costa, responsável pelo julgamento do agravo de instrumento.

Prezado Senhor,
Desembargador Raldênio Bonifácio Costa

Temos conhecimento da decisão do excelentíssimo Juiz Substituto da Vara Federal de São Mateus-ES Dr. Leonardo Marques Lessa que, em 25/07/2007, expediu mandado para cumprimento da liminar de reintegração de posse interposta pela empresa Aracruz Celulose S/A em face de “Altiane Blandino dos Santos, Antônio Jorge dos Santos e demais integrantes e simpatizantes das Comunidades Quilombolas de Conceição da Barra – ES.

Tal decisão determina a desocupação de parte do território pertencente à Comunidade Quilombola de Linharinho, localizada no município de Conceição da Barra – ES.

A Comunidade de Linharinho compõe o Território Quilombola do Sapê do Norte, que abrange os municípios de São Mateus e Conceição da Barra, ao Norte do Estado do Espírito Santo. Trata-se da primeira comunidade quilombola da região a contar com os procedimentos administrativos para a regularização fundiária de seu território, direito constitucional garantido nos termos do art. 68 da CF, e reconhecido através da Portaria nº. 78/07, expedida pelo INCRA e publicada no Diário Oficial da União no dia 15/05/2007.

Temos conhecimento também que na data de ontem, dia 01/08/2007, no Tribunal Regional Federal da 2ª Região, foi interposto agravo de instrumento contra o referido despacho judicial que foi distribuído e tombado sob o nº. 20070201009619-1 para a 8ª turma especializada deste egrégio Tribunal. Solicitamos, portanto, à vossa Excelência, que dê provimento a tal medida atribuindo-lhe efeito suspensivo, tendo em vista que o despejo da referida Comunidade além de contrariar os direitos humanos acarretará o descumprimento da convenção 169 da OIT da qual o Brasil é signatário.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Empresas querem petróleo do Território Quilombola do ES (Notícia do Século Diário)

Ubervalter Coimbra

As empresas têm pressa - muita pressa - em explorar o petróleo do Território Quilombola do Sapê do Norte. Nesta terça-feira (24), em reunião com as comunidades de Linharinho e São Domingos, pediram resposta imediata ao pedido de autorização para realizar explorações na área, com emprego de sísmica. Terão que aguardar para saber se serão autorizados, ou não!

A empresa que detém autorização da ANP para exploração de blocos de petróleo no território quilombola é canadense Koch. Que contratou para os estudos de sísmica em Sapê do Norte a Granphysical, que por sua vez buscou o CTA, empresa capixaba, para cuidar do processo de licenciamento ambiental.

Foram as empresas contratadas que pediram a reunião prévia com as comunidades, buscando autorização para realizar o trabalho de sísmica. Segundo relato de Elda Maria dos Santos, da Comissão Quilombola de Sapê do Norte, as empresas informaram que a pesquisa na região deverá durar cerca de 20 dias.

E queriam sair já autorizadas pela comunidade. Elda Maria dos Santos, em Linharinho participaram da reunião mais de 20 pessoas. Elas informaram à empresa que toda a comunidade terá que ser ouvida sobre o assunto, para que tenha resposta. Para isso, os descendentes dos escravos negros vão se reunir na próxima semana.

Para as reuniões de ontem, os quilombolas exigiram a participação de representante do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), órgão responsável para conduzir o processo de devolução do território aos descendentes dos escravos negros. Exigiram ainda participação de representação do Balcão de Direitos, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Pelo Balcão de Direitos da Ufes participou a estudante Nila Vallado Praga. Ela relatou que os quilombolas deixaram claro que só responderiam à empresa após ouvir toda a comunidade e que participavam de uma reunião de esclarecimento, e não de uma audiência pública. As audiências públicas são exigidas no processo de licenciamento ambiental.

Já houve pesquisa de petróleo com emprego de sísmica na comunidade quilombola de Divino Espírito Santo. As pesquisas para identificação dos territórios quilombolas no Espírito Santo apontam que os negros descendentes de escravos têm cerca de 50 mil hectares de terras no Estado. A Aracruz Celulose é a principal ocupante destas terras, mas também há fazendeiros entre os que usurparam as terras dos negros, como em São Domingos.

O Território Quilombola de Sapê do Norte é formado pelos municípios de Conceição da Barra e São Mateus.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Novo Link e Categorias


Notícia.

Seguindo com a mudança de nosso site que visa torná-lo mais dinâmico, incorporamos um novo link destinado ao gerenciamento do projeto. O acesso é restrito aos membros. ele visa contribuir para o trabalho conjunto e a distribuição de tarefas entre os participantes.
Novas categorias foram acrescentadas visando permitir ao leitor do blog visualizar somente as publicações que lhe interessarem, tais como: índios, quilombolas, direitos humanos, notícias, etc. Isto torna a visualização do conteúdo mais simplificada e objetiva.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

CARTA ABERTA À POPULAÇÃO


Queremos manifestar a nossa indignação, nosso repúdio e esclarecer historicamente à população sobre algumas informações deturpadas, transmitidas pela Multinacional Aracruz Celulose, por exemplo, as suas ações e comunicações coercitivas veiculadas pela imprensa, nas escolas e instituições do município.

Em primeiro lugar, a Empresa faz afirmações sobre a inexistência de aldeias indígenas na região de Aracruz, no entanto, como podemos comprovar no jornal A Gazeta do dia 04/01/1995, fala de um sítio arqueológico, com duas urnas mortuárias intactas e quatro fragmentadas, descoberto em Santa Cruz com no mínimo 600 anos de existência. Isso quer dizer que bem antes da chegada dos portugueses, os índios já viviam nesta região.

Ela afirma ainda que “... no século XVI, os Tupinikim ocupavam uma faixa de terra situada entre Camamu (BA) e o rio São Mateus (ou Cricaré), alcançando a Província do Espírito Santo”, mas, historiadores e alguns viajantes como Jean de Léry, que passou pelo território espírito-santense em 1557 e Gabriel Soares de Sousa (1587), confirmam a presença dos Tupinikim no século XVI não só na região entre Camamu e o rio São Mateus, mas também na Região de Aracruz. Esses índios também viviam na região do rio Piraquê-Açu, onde em 1556 foi fundada pelo jesuíta Afonso Brás a Aldeia Velha (Santa Cruz). De acordo com John Hemming, a população Tupinikim do sul da Bahia até o Espírito Santo era em 1.500, de 55 mil habitantes. Há registros da etnia Tupinikim na região de Aracruz nos escritos de André Thevet, Hans Staden, dos jesuítas José de Anchieta e de Fernão Cardim.

Nós estamos nessa região há mais de 600 anos, como comprova vários documentos. Estamos resistindo e vimos muitas de nossas aldeias serem destruídas.

Em segundo lugar, estamos reivindicando apenas uma parte da terra que nos pertence e é necessária para a nossa sobrevivência e dos nossos filhos.

De acordo com o Livro Tombo de Nova Almeida: “Em 1610, os índios Tupinikim receberam do representante da coroa portuguesa no Espírito Santo, donatário e presidente da província Francisco Aguiar Coutinho, a “doação” de uma sesmaria de terras de seis léguas em quadro. Em 1760 a área foi demarcada, com aproximadamente 61 quilômetros no sentido Norte-Sul e 49 quilômetros no sentido Leste-Oeste”. Esse território foi medido de um lugar chamado Patranha (entre Jacaraípe e Capuaba) indo até Comboios. A sesmaria foi confirmada por Alvará em 1760. E; e em 1860, D. Pedro II visitou a aldeia Tupinikim e ratificou a doação das terras.

A nossa briga é com a Empresa Aracruz Celulose que ocupou a nossa terra indevidamente, como nos relata a Constituição Federal de 1988 no Artigo 231: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo a União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”. No parágrafo 2º: “As terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se a sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes”.

Apesar de que o governo nem sempre posicionou em nosso favor, em todos os estudos antropológicos da FUNAI confirmaram essa terra como terra indígena.

Em terceiro lugar, gostaríamos também de tranqüilizar a população, pois, não vamos invadir as suas casas e roubar o que lhes pertence.

Em quarto lugar, a nossa ação tem como objetivo pressionar a FUNAI para encaminhar o relatório de contestação à Empresa Aracruz Celulose ao Sr. Ministro Márcio Thomaz Bastos em vista da demarcação e a homologação dos 11.009 hectares que nos pertence.

Em quinto lugar, no século XVIII, fomos proibidos de falar a nossa língua e obrigados a adotar nomes portugueses. De acordo com Prezia e Hoornaert (2.000:94): “A língua portuguesa tornou-se obrigatória, os caciques viraram “capitães” e as lideranças passaram a ser vereadores municipais ou juízes. Todos os indígenas a partir daquele momento seriam cidadãos portugueses”. Como podemos ver, fomos obrigados a falar somente a língua portuguesa e hoje muitos exigem de nós o uso da língua indígena como sinal da nossa identidade. Diante desses fatos históricos, não seria uma contradição exigir de alguém a falar uma língua de que foi proibido há mais de dois séculos!?

De acordo com Coutinho (2006,145): “Em 1758, outra Carta-Régia proibia que novas povoações recebessem nomes indígenas, e os jesuítas eram considerados culpados pelo fraco uso da língua portuguesa e ensinar o Tupi”. Há também, outros escritos que confirmam a imposição da língua portuguesa em detrimento da língua indígena.

O Artigo 3º da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirma: “1) Os povos indígenas e tribais deverão gozar plenamente dos direitos humanos e liberdades fundamentais, sem obstáculos nem discriminação. As disposições desta Convenção serão aplicadas sem discriminação a homens e mulheres desses povos. 2) Não deverá ser empregada nenhuma espécie de força ou de coerção que viole os direitos humanos e as liberdades fundamentais desses povos, inclusive os direitos contidos na presente Convenção”.

Em sexto lugar, a Empresa ridiculariza a imagem do cacique Vilson Benedito de Oliveira, ao apresentá-lo, segundo ela, com elementos culturais de outros povos indígenas. Indignados com tal afirmação, queremos afirmar: “Sobre a questão indígena aqui no Espírito Santo, “a questão pois da autenticidade de uma cultura, é uma falsa questão. A cultura é reproduzida para o aqui e o agora...” (Revista Agora-ES, abril/80p.35). Na mesma entrevista, Cunha, questiona o fato da sociedade “nacional” cobrar dos índios uma imagem cultural estática, congelada no tempo e no espaço. “O que lhes censura, mais ou menos conscientemente, a opinião urbana, é não terem perpetuado inalterada a sua tradição cultural, Não serem mais aqueles margaiás vistosos e guerreiros. Curiosa censura! Alguém jamais nos censurou ou pôs em dúvida nossa identidade étnica por sermos tão diferentes hoje de há um, dois ou quatro séculos atrás? O que temos culturalmente em comum com os descobridores do Brasil? Nem mesmo a língua, basta tentar reler os escritos da época. Se a cultura é algo vivo, que se transforma, por que exigir que a deles, não a nossa, tivesse parado no tempo”.

A Empresa critica também a identidade do cacique Vilson e gostaríamos de esclarecer que a pintura corporal utilizada pelo povo Tupinikim é uma tradição dos nossos antepassados e segundo Gregório (1980:29): “A pintura do corpo usada pelas tribos Tupi-Guarani, era feita com urucu e o jenipapo” e os adornos eram utilizados para se enfeitar e de acordo com Staden (1974: 168): “Além disso fabricam para si um enfeite de penas vermelhas, que se chama acangatara (cocar) e que amarram à cabeça”. E o nome Jaguareté é um nome Tupi e de acordo com Teixeira (1995:299):

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Onça jaguaraté djagwára txãwãrã jagwareté

Estamos nos sentindo feridos na nossa dignidade e nos nossos direitos e de acordo com a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) – Artigo 14: “Dever-se-ão reconhecer aos povos indígenas e tribais os direitos de propriedade e posse da terra que ocupam tradicionalmente. Além disso, nos devidos casos, deverão ser adotadas medidas para salvaguardar o direito desses povos de utilizar terras que não sejam exclusivamente ocupadas por eles, mas às quais tradicionalmente, tenham tido acesso para suas atividades tradicionais e de subsistência. Nesse particular, deverá ser dada especial atenção à situação de povos nômades e de agricultores itinerantes”.

Enfim, sabemos que estamos lutando contra uma grande potência, uma multinacional que usa do seu poder econômico para induzir a população a tomar partido a seu favor com argumentos insustentáveis, e por isso, convidamos a população a fazer uma pesquisa sobre a verdadeira História do nosso povo. A Empresa chegou no município em 1967 e nós estamos aqui há mais de 600 anos. Afinal, de quem são essas terras?